Como as pessoas enxergam as suas cores?

Entenda a miscigenação e a formação da identidade brasileira

Em 2014, o instituto Tomie Ohtake recebeu a exposição Histórias Mestiças. A mostra foi o resultado de mais de dois anos de pesquisa dos curadores Adriano Pedrosa e Lilia Schwarcz sobre as matrizes formadoras do povo brasileiro, analisando a questão da mestiçagem e seu rebatimento na produção artística. Questionamentos como: Quem mestiçou quem? Como se mistura inclusão com exclusão social? Quais são as diferentes histórias escondidas nesses processos de mestiçagem? Permearam a construção da exposição.

A primeira obra do percurso da mostra era uma paleta de tintas, na qual a artista abordava como as pessoas denominam as suas cores. Termos como “marrom bombom”, “morena cor de jambo” e “branco leite” foram personificados. Pensando nessa obra, a Visão AL22 desenvolveu uma pesquisa para entender como as pessoas enxergam as suas cores.

O estudo contou com cerca de 300 entrevistados, em sua maioria mulheres, de 19 a 29 anos, brancas. O último questionamento, entretanto, dava espaço para que as pessoas se identificavam ou não com os termos da obra. Do total, 28% se reconheceram nos termos e exemplificou qual. Segundo o cientista social e professor universitário Cláudio de Sá, a pesquisa proporcionou uma reflexão importante sobre as origens das pessoas e a diversidade e pluralidade necessárias para uma sociedade mais democrática.

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Miscigenação brasileira

A história do Brasil começa a ser construída ao mesmo tempo em que a sua miscigenação acontece. A população foi formada basicamente por indígenas, africanos e portugueses, entre outras nacionalidades. Essa mistura deu origem a três tipos de mestiços: mulatos, caboclos ou mamelucos e cafuzos. Para Cláudio, essa miscigenação pode ser vista no cotidiano da população. “Torna-se impossível identificar uma única linhagem, já que o biológico se impõe sobre qualquer discurso purista”, afirma.

O antropólogo Darcy Ribeiro (1922-1997) escreveu, em 1995, o livro “O Povo Brasileiro – A formação e o sentido do Brasil”, o ensaio é fundamental para compreender a formação étnica e cultural do povo brasileiro. O autor usa o termo “ninguendade” para expressar a necessidade de se criar uma identidade brasileira oriunda de toda a miscigenação do país.

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A formação do brasileiro | Washi Rodrigues

Os dados da pesquisa revelaram que entre as pessoas que identificam a sua ascendência como africana ou indígena, ou seja, miscigenados, 4,7% se declaram como brancas. Porém, na questão aberta essas mesmas pessoas disseram ser chamadas de “morena” ou “cor de papelão”. De acordo com o professor, as pessoas tentam “suavizar” o preconceito via “embranquecimento”, o que mascarar o preconceito e tentar incluir grupos dominados no campo do grupo de poder dominante.

Esse fato mostra também uma dificuldade para as pessoas definirem suas cores. Cláudio acredita que esse processo deve estar ligado ao conhecimento histórico e a educação plural que uma sociedade miscigenada deve construir. “Isso faz com que cada um dos participantes reconheça seu papel social na história, crie sua identidade múltipla e construa uma sociedade que supere os preconceitos pautados em ignorância biológica. Afinal, só existe uma raça. A raça humana”, conclui.

“Compartilho da visão de Darcy Ribeiro. Nos tornamos brasileiros para fugir da ‘ninguendade'”.

Pesquisa de opinião

O professor universitário pesquisador Wesley Pinheiro diz que as pesquisas de opinião são de extrema importância e eficiência, pois mostram indicadores de comportamentos sociais e entendem as demandas da população em relação às questões de políticas públicas, política, economia, cultura, direitos, entre outros interesses. Em relação à confiabilidade, Wesley conta que a maneira como as pesquisas são mensuradas e a representatividade da amostra interferem diretamente no resultado, tanto para bem, como para o mal.

Sobre o estudo elaborado pela Visão AL22, o pesquisador afirmou: “Pesquisas que apontam à reflexão que as pessoas têm sobre a discussão da relevância da cor na sociedade é importante para medir o quanto ainda há agrupamentos mediante essa temática e o quanto isso interfere no convívio social, tanto para o bem quanto para o mal”.

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Aryel Fernandes

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